Oração dos pobres

Vivenciando a semana da solidariedade preparando o Dia Mundial do pobre, recordo que o Papa Francisco, em sua mensagem (nº 8) trata do tema da oração do pobre. A oração do pobre é a oração do Pai Nosso.

O Evangelho de Lucas 11, 1-13 nos apresenta a oração do Pai Nosso. Jesus, mais uma vez, está em oração, num lugar. Lucas não se importa em precisá-lo. Qualquer lugar pode se tornar um espaço de oração: em casa, fora da pátria, na estrada. Os discípulos esperam respeitosamente, Jesus terminar a oração, para pedir-lhe que os ensine. Vêem que Jesus alimenta a sua espiritualidade na oração e sentem necessidade de também eles beberem desta fonte, capaz de sustentar a caminhada. Querem saber o conteúdo da oração, a qual Jesus resume em cinco pedidos, que facilmente podem ser repetidos.

Chamar a Deus de Pai revoluciona a relação entre aquele que faz a oração e a quem se dirige a mesma. Estabelece uma relação de intimidade e de confiança naquele que é doador da vida, cheio de misericórdia (6,36). Não é um pedido intimista, mas aberto. Expressa o desejo de que o Pai se dê conhecer a todos, para que todos conheçam a sua santidade, ou seja, que se realize a sua justiça. Historicamente, Deus se deu a conhecer libertando seu povo (Êx 3,14).

O Evangelho (Lc 11, 1-13) retoma o tema da oração. Jesus, solicitado pelos seus discípulos, ensina-os a orar: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o Teu nome. Venha o Teu reino” (Lc 11, 2). O cristão, autorizado por Jesus, chama a Deus de Pai, nome que dá à oração uma atitude filial, que pode derramar o seu coração no coração de Deus, apresentando-Lhe as suas necessidades, de maneira simples e espontânea, como indica o Pai-nosso.

Com a parábola do amigo importuno Jesus ensina a orar com perseverança e insistência, como fez Abraão, sem temer a ser indiscretos: “Pedi, procurai, batei”. Não há horas inconvenientes para Deus. Nunca se aborrece da oração humilde e confiada dos Seus filhos, mas antes se compraz com ela: “Todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e ao que bate abrir-se-á” (Lc 11, 10). E, mesmo que o homem nem sempre obtenha aquilo que pede, é certo que a sua oração não é em vão, pois o Pai celeste responde sempre com o Seu amor e a seu favor, embora de uma maneira oculta e diferente da que o homem espera. O mais importante não é obter isto ou aquilo, mas sim, que nunca lhe falte a graça de ser cada dia fiel a Deus. Esta graça está garantida ao que ora sem cessar: “Se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que O pedirem” (Lc 11, 13). No dom do Espírito Santo, estão incluídos todos os bens que Deus quer conceder aos Seus filhos.

Afinal, por que orar? Para nos abrir e escutar o Senhor, para nos fazer tomar consciência dele com todo o nosso ser, para que percebamos com cada fibra do nosso ser, do nosso consciente e do nosso inconsciente que não nos bastamos a nós mesmos, mas somos seres chamados a viver a vida em comunhão com o Infinito, em relação com o Senhor. Sem a oração, perderíamos nossa referência viva a Deus, cairíamos na ilusão que somos o centro da nossa vida e reduziríamos o Senhor Deus a uma simples ideia abstrata, distante e sem força.     Todo aquele que não reza, seja leigo, seja religioso, seja padre, perde Deus, perde a relação viva com ele. Pode até falar dele, mas fala como quem fala de uma ideia, de uma teoria e não de alguém vivo e próximo, que enche a vida de alegria, ternura, paz e amor. Sem a oração, Deus morre em nós. Sem a oração é impossível uma experiência verdadeira e profunda de Deus e, portanto, é impossível ser cristão. Por tudo isso, a oração tem que ser diária, perseverante e fiel.

Jesus retirava-se para rezar, com frequência! E um dia, ao terminar a sua oração, seus discípulos lhe pediram: “Senhor, ensina-nos a orar… É o que nós temos de pedir também: Jesus, ensina-me de que modo relacionar-me com o Pai, diz-me como e que coisas devo pedir! Se Jesus foi um homem orante, também os cristãos são chamados a serem homens e mulheres orantes. Para que possam transformar toda a sua vida numa comunhão profunda com Deus, importa dedicar espaços de tempo explicitamente ao exercício da oração. Sem dúvida a oração constitui uma profunda experiência pascal. Daí cuidarmos da vida de oração, pois a oração é o grande recurso para sair do pecado, perseverar na graça, mover o coração de Deus e atrair sobre nós toda a sorte de bênçãos do céu, quer para a alma, quer pelo que respeita às nossas necessidades temporais.

O Santo Padre nos diz: “o Pai Nosso é a oração dos pobres. De fato, o pedido do pão exprime o abandono a Deus nas necessidades primárias da nossa vida”. “O Pai Nosso é uma oração que se exprime no plural: o pão que se pede é “nosso”, e isto implica partilha, comparticipação e responsabilidade comum. Nesta oração, todos reconhecemos a exigência de superar qualquer forma de egoísmo, para termos acesso à alegria do acolhimento recíproco” (Retirado do site: tps://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri/documents/papa-francesco_20170613_messaggio-i-giornatamondiale-poveri-2017.html. acessado pela última vez em: 07/11/2017).

Contudo, observemos que a oração que Jesus ensinou, o Pai-nosso, é toda ela centrada não em nós, mas no Pai: no seu Reino, na sua vontade, na santificação do seu nome. Somente depois, quando aprendermos a deixar que Deus seja tudo na nossa vida, é que experimentaremos que somos pessoas novas, transformadas pela graça do Senhor.

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Fonte CNBB

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