História

52 ANOS - HISTORIA

52 ANOS, A VOZ DO SAO FRANCISCO, EMISSORA RURAL – AM

Corria 1959, um ano marcado na economia brasileira pela ousadia tupiniquim, pela opção industrial do automóvel,um país de padrões acanhados,se comparado à liderança ianque dos Estados Unidos,em tudo.

Na cultura, o Brasil amadurecera, a charge das bananas de Carmem Miranda, portuguesa mais brasileira, made in balangandã, yes, nós temos e nós somos bananas. Isso dera lugar ao protagonismo de uma vertente musical movida à bossa nova.

Nesse ano, Juscelino Kubitschek era presidente do país. Concedia licença para instalação de rádio, uma engenhoca que produzia música, teatro, informação e muitos talentos a partir do Rio de Janeiro. Rádios Nacional e Tupi ditavam o IBOPE de tudo. A TV ainda engatinhava.

Ainda em 1959, um bispo pernambucano de Garanhuns, quarto na sucessão diocesana de Petrolina, acabara de se instalar nesse “lugarejo metido”, resumido a quarteirões bem divididos em três partes: centro, atrás da banca e alto cheiroso, que contrastavam ante o oponente templo gótico: A Catedral Católica. Tempos depois, vendo tudo crescer ao seu redor, Dom Antônio Campelo de Aragão: Eloquente, um barítono, inconformado na verdade ante atraso ‘caatingueiro’ de Petrolina.

Rio e Catedral, intuição fortalecida pela passagem profética de outro Antônio: Antônio Maria Malan, primeiro bispo daquele – não muito distante – 1926. Cientista social e teológico, da “Casa de Deus”, das escolas clássicas, do Hospital Renitente “Italo-Franco”, destoando desse Antônio que não era Malan. Era ‘Aragãaaao’, ‘agrestino’ de inverno! Dom Antônio Campelo de Aragão.

Petrolina com tímida economia de uma agricultura recém-promovida a atividade urbana, mas, cidade densa, densa. Um Souza Filho já havia tratado de elevá-la a polo político, com pretensões também envaidecidas, com o barulho de “Coelhos” e “Barracões”, completada uma década. Essa correnteza fora escriturada com voto em 1948. Nilo Coelho, deputado, João Barracão, prefeito. A cidade do eleitorado meio a meio.

Juscelino, presidente, já era amigo há tempo do Antônio Campelo de Aragão, bispo de Petrolina. Uma estrada que pavimentava o desejo do religioso, crente que o evangelho poderia ser eletronicamente uma torre para acender uma gente marcada por sucessivas secas e impiedosa fome. Que rimava miséria. Que espancava um sertão analfabeto, desinformado,        isolado e refém de si mesmo.

Dom Antônio Campelo, em 1959, pleiteou uma concessão para rádio com missão rural que seria novidade. Emancipação social que turbinaria o evangelho e os efeitos colaterais da informação, da música e do entretenimento.

Juscelino, respaldado pela ousadia do bispo, via ali, alguém que comungara o espírito do cinco em cinquenta, multiplicado Brasil afora. Assinou a concessão para que petrolinenses fizessem barulho, cantassem, falassem, e, emancipados: Contestassem e debatessem.

O sonho para a Emissora Rural ainda esperaria eternos três anos que não passavam. Se arrastavam sob a histriônica vassoura do novo mandatário do país, presidente Jânio Quadros: A caneta para fazer funcionar transmissores.

O ano era 1962. Jânio Quadros rendera-se ao discurso franciscano de Dom Antônio Campelo. Mandara seus comissários, tocarem junto ao bispo sertanejo o trâmite burocrático que ainda levaria uma meia primavera para ter voz própria, estridência primeira na silenciosa  rua Pacifico da Luz: Um puxadinho atrás do palácio episcopal, batendo o coração num dia calorento de 28 de outubro de 1962.

Fábrica de carros, bossa-nova, bicampeão de futebol do mundo. O Brasil já havia colocado a cara no mundo. A Emissora Rural, acabara ali, de colocar o sotaque de Petrolina pro país inteiro. Era a grife do São Francisco, na verdade: A Voz do São Francisco.

Ainda não havia para Petrolina, nem uva, nem manga. Havia rádio. Havia Emissora Rural por que havia Dom Antônio Campelo de Aragão, precursor mais saliente da comunicação dessa cidade com seus novos comunicadores, tecnologias, digitalizados meios de falar.

Texto de Marcelo Damasceno

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