A Emissora Rural nascia um ano e seis meses antes da instalação do regime militar, 1962, por uma canetada do Presidente Jânio Quadros.

Governador Nilo Coelho

O processo de tramitação e posterior concessão pública de rádio, dormia em esplêndida gaveta da Presidência da Pepública. Juntava-se isso aos delírios de Jânio e seu humor etílico com uma grave crise que se desenhava a partir da desconfiança velada dos quartéis ante as estrupilias do presidente anterior, Juscelino Kubstchek, muito avançado pro gosto Udenista, legenda simpatizante do verde oliva. Um outro mineiro, no governo federal,  o habilidoso jovem chefe de gabinete, José  Aparecido aparecido, que avalizara o sonho daquele bispo insistente, Dom Antonio Campêlo, tirar do sono a sonhada rádio dos caatingueiros, emissora rural, para comunicar e evangelizar.

Concessão feita pelo presidente Jânio, radio feita em Petrolina. Sob a condição de comunicar e evangelizar.  Transmissores verticalizados, espremidos por baraunas e canafístulas, abraço de macambira e indiferença dos imbuzeiros distantes   do muquém, emissora rural no ar.

Primeiros locutores contratados,        gestão administrativa já determinada por Dom Campêlo, o segundo passo era honrar o aval do mineirinho aparecido, evangelizar.

Em 1964, a infantaria mineira avançara nas águas de março rumo ao Rio de Janeiro. Havia uma combinação dos interesses da UDN, legenda simpatizada por nove de cada dez coronéis, militares ou não, as desconfianças do pentágono, fora daqui milhares de léguas, estados unidos, onde quem mandava era Jonh Kennedy e quem enrubescia a casa branca era  a galega, Marilyn Monroe. O governo “pusilânime” de João Goulart, passava manteiga  nas narinas sindicais. E essas agitações tinham cheiro cubano. Fidel castro comandava a tropicália da ilha de havana.

Em Petrolina, o prefeito era Luiz Augusto Fernandes, começo de gestão. Nilo Coelho mandava em      Pernambuco e depois virava governo de costas para o mar. Tocar sua Petrolina de impossíveis era um asfaltado sonho. E Nilo asfaltou. Do cais enfeitado de paquetes aos poderosos navios da república de Mauricio de Nassau, Recife.

1967, incólume, a Emissora Rural, engatinhava evangelização, realizava no puxadinho do Palácio Episcopal, num auditório que mais lembrava uma maquete, as manhãs de domingo com Reinaldo Belo, Geraldo

Azevedo e Germano, seu irmão. Carlos Augusto Amariz, José Maria Silva, conterrâneo de Dom Antonio Campêlo, trazia o sotaque agrestino de Garanhuns, estava chegando todo multimeio, multimidia. O regime militar despedaçara tres anos antes os sindicatos calientes de Fidel Castro ramificados na subversão implícita de um certo Carlos Mariguella, baiano que trocou o trio elétrico da sua Bahia pelas armas de fogo de Che Guevara. A UDN sugeria que o regime, aliado a Kennedy, afinado com a elite conservadora, calasse os imbecis da esquerda russo-cubana.

Nesse período, já findando a década dos anos    1960, Dom Campêlo recrutara, monitores e professoras que rezariam a cartilha do abc. Como educar? Se não tinha como ouvir? Dom Campêlo tirou, não se sabe de que jantar de adesão, centenas de centenas de exemplares de radinhos de pilha para a audiência compulsória da onda média e da onda curta. Este radinho foi feito pra se ouvir apenas a rádio do padre Mansuêto de lavor.

As professoras, Mundica   Teixeira      Coêlho, por Pernambuco, e Maria Perpétua, Perpetuazinha, pela Bahia, estavam nomeadas por Dom campêlo e assim fazer andar a radiofônica, para comunicar e evangelizar.

Logo, udenistas enrustidos delataram a Diocese de Petrolina. Que por aqui, uma rádio da igreja estava deixando a população muito “sabida”. Com a sugestão de recolhimento das cartilhas e dos aparelhinhos zoadentos de rádio, paredinhos de mesa, militares e  agentes do regime, pretendiam acabar com essa ousadia da Emissora Rural. Dom Campêlo, em Petrolina e a decisiva intervenção santa de Dom Tomás, em Juazeiro Bahia, esclareceram em público e em particular que a rádio era veículo de isenção jornalística, mas, nem por isso, como foi denunciada por anônimos, subversiva. Estes bispos, habilidosamente, garantiam a radiofônica dirigida pelas professoras,  Mundica Coêlho e Perpetuazinha Carvalho.

O quadro que adorna o hall das instalações da  emissora rural, tela em óleo eternizada pelas vigorosas tintas de Celestino Gomes, artista plástico e escultor, dava a senha. Evangelizar, comunicar, evangelizar. O retrato de Cristo entre seus apóstolos e caatingueiros esturricados do sol. Na outra foto, um matuto ouvindo  rádio ao calor de candeeiro ressacado de fumaça.     Cenário que enfeita a rádio, hoje modernizada pelo força dos modernos banners e  adesivos personalizados da última arte virtual. Bens imateriais da cidade que se gaba muito zelosa ser a dona do dail 730 Am de Deus para espocar  “wwwwwww.ponto com. Ponto br.” A diocese de Petrolina, convencera com seu bispo, Dom Campêlo, um regime desconfiados dessas “radiofônicas” que comunicavam e evangelizavam. Prevaleceu o “soletrando” da Emissora Rural. Que virou academia. Que virou prefixo de cidadania. A década do Ai-5 chegara ao fim e o palácio Federal já tinha novo inquilino, emilio Garrastazzu Médici. Chegava com ele, as incertezas políticas do mundo submetido aos caprichos de Moscou e   Washington.

A Emissora Rural anunciava os feitos do governador da irrigação e da industria, Nilo Coêlho.
Reporteres, âncoras, disque jóqueis, revezavam uma aparente programação de entretenimento e bucólicas aulas  pela  jovem Emissora rural. Petrolina  arrematava com seu povo, a propaganda medicista, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, e os contornos de Fernando Gabeira com a ajuda de uma recém academica, uma certa terrorista que depois virou primeira presidente, Dilma Roussef. Sequestros e o desejo sobre o cofre do mensalão patrocinado pela UDN de Adhemar de Barros. Nao havia STF e sim STM, Supremo Tribunal Militar, para julgar vivos e mortos.

Nilo Coêlho, continuava governador até começo dos anos 1970, de todo o Pernambuco. O padre Mansuêto, dirigia sem sobressaltos a Emissora Rural, Simao Durando, prefeito,   enfeitaria depois um sonho de argamassa pura em forma acústica. Uma concha para todos. A Emissora  comunicava com Carlos augusto e seus pares. A Diocese evangelizava e anos mais tarde, 1976, era reforçada por Dom José Rodrigues, um bispo vermelho que veio assumir o episcopado de Juazeiro Bahia. O regime militar dava as cartas, a Emissora, radiofônica,  semeava a verdade, comunicação e evangelho para a diáspora de Sobradinho Bahia e sua hidrelétrica a converter ingás, paus-ferros e  coroas-de-frade em lago artificial onde  Sá, Rodrix e Guarabira, acordariam o hino dos desajolados de Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, valei-me Nossa Senhora de Campo Alegre de Lourdes.

Por Marcelo Damasceno, Petrolina., 23 de outubro de 2012.

 

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