A Emissora Rural na década de 70 e seu papel libertário 50 anos‏

A Emissora Rural na década de 70 e seu papel libertário 50 anos‏

Com o slogan, “Ame-o ou Deixe-o”, o governo Garrastazu Medici, sob a forma mais linha dura do regime militar, ditadura sob o pretexto de colocar ordem no país e livrá-lo da febre “comunista”, censurava e arrebentava a imprensa que ousasse enfrentá-la.

Para a jovem emissora rural, presidida por um bispo com arrojo pernambucano, embora afável e cavalheiro, Dom Antonio Campelo, era um desafio. Produzir programas “educativos” advindos e orientados das pastorais eclesiais de base, e reger cidadania, em terras dominadas por feudos engajados com o regime, oligarquias bem planejadas, um sertão lascado de pobre, desigual, seco, era um absurdo uma rádio querer  “fazer a cabeça” de caatingueiros analfabetos e ignorantes, sem sorte na vida, sem instrução, miseráveis dependentes dos favores cobrados com juro de mora em tempos eleitorais. Difícil. Um bispo convencer uma cidade ainda  em tímido progresso urbano, organizado com plano diretor por um certo prefeito visionário, Luis Augusto Fernandes, e sua intromissão para o ordenamento fundiário.

Este plano diretor era de um pedantismo tremendo para um lugar ribeirinho com uma caatinga que não prometia nada, um solo que não acrescentava perspectiva para enriquecer  as pessoas do lugar. Nilo Coelho, já era neste tempo, governador de Pernambuco. Outro sertanejo metido que  tinha noção dos corredores do poder federal, e, enigmático, jogava conversa em tecnocratas da economia, oferecendo água de graça e terras a perder de vista pra quem dispusesse investimento agrícola na miragem do bebedouro, lugarejo assolado  pela preguiça de dias intermináveis de sol impiedoso. Na verdade, um sol pra cada matuto.

A Emissora Rural, fazia zoada, dirigia seu povo, educava. O bispo , Dom Campelo, rezava. Era a novena do céu. O padre Pedro Mansueto, diretor e radialista de palavra facílima,        informava com jornalismo, era a novena da terra.

Nilo Coelho, rimava seu bebedouro ilusório sonhando em vertigem Severina. Queria irrigar a seca, a solidão do solo. Para brotar do chão esturricado,     melancia, melão, uva , banana, goiaba. Era médico, portanto, ninguém ousava sugerir-lhe um tratamento psiquiátrico. O irmão mais próximo da atividade de governo, Osvaldo Coelho,  não entendia tudo aquilo, mas, acompanhava a novena irrigada.

A Emissora Rural, era única. A missa dominical revezava, Dom Campelo e seus contáveis auxiliares, padres politizados, de boa concepção da teologia, filosofia e sociologia. Destaque para padre Bernardino, mestre do latim, e, padre Bartolomeu, Orfeu da orientação pedagógica.

O regime militar, AI-5 faminto, cadeias prontas para terroristas e agitadores. O General Médici dava régua e compasso. Gilberto Gil e Caetano Veloso, baianinhos barulhentos pregavam a tropicália sem roupa. Chacrinha fazia sucesso com eles todos , na tv, balaçando a pança.

Nesse período duro da política brasileira, regime militar debutando o estado, a tortura virava instituição. A censura, avisava das dores aos insistentes libertários da imprensa.

A Emissora Rural, em verso menor, inventara um hábito do meio dia, após tentativas com outros noticiosos similares, revistas diárias dos acontecimentos exteriores, do Brasil e do mundo, e, interiores, dessa nossa região. Surgira, o repórter somassa, a impressionante e vigorosa voz do radialista com topete de vaqueiro, Carlos Augusto Amariz Gomes. Já de experiências anteriores em comunicação doméstica do Brasil Publicidade e suas provincianas cornetas, carlos augusto, passara no teste, com louvor para ser o mais destacado noticiarista legitimamente nosso, da terra, do povo. A trilha sonora do Reporter Somassa, noticioso de maior charme desse nordeste, era inconfundível. Instalou hábitos para o meio dia do nosso unico sol. Hora do almoço, hora de silencio. Todo mundo esperava o Repórter Somassa, decada de 70 com tanta moda, a musiquinha para começar tão eternizado noticioso, compunha orgulho com sonoridade clássica, grave, intocada, feito a voz do noticiarista, Carlos Augusto de seu Zequinha.

Pela manhã, logo cedo ou sob o ocaso da tarde, um  outro magrelo, matuto e astuto, multimidia da época, Reinaldo Belo, fazia tabelinha com disq-jóqueis, forrozeiros e  cantadores, e gente graúda, pra ser comunicador de grandes centros urbanos, revelando-se voz boa de acompanhar uma manhã inteira das donas-de-casa, taxistas da Souza Filho, principal atração do centro de Petrolina, e lojas, como a Noralar, que já permutavam eletros para sorteio na programação.

Uma ponte, duas cidades, baritono metropolitano, clésio rõmulo athanasio, inconfundível, único, vaidoso, porque podia gabar-se da voz e do talento irrequieto para criar controvérsias e ditar moda masculina. Clésio era a expressão do radio em Juazeiro Bahia e Petrolina, Pernambuco.

O Reporter Somassa, entremeava-se ao cotidiano sertanejo a dividir a vida pacata do centro urbano de Petrolina com o cheiro de bode da caatinga virgem do avelós de Manoel do Arroz e a favela estridente de Antonio Cassimiro. Chocalho, zunindo aos ouvidos abandonados do distante espinho, lugar de roda de Sao Gonçalo, próximo ao terreiro de candomblé sob o tambor teimoso de Lourenção Piru na Vila Mocó. O vaqueiro Basilio, devotado ao patrão, seguia a risca a orientação do comerciante mais lembrado da rua Dom Vital com Avenida Souza Filho,     Anisio Moura, que não soletrava marketing, mas , já colaborava no jeito de vender gaiola ou tecido de chita como quem vende hoje, havaiana ou rider, coca -cola ou sky por assinatura. O 2 de Julho concorrente de fé, estreava a venda de argamassa ao lado dos pregos ripais e cabais com papel de enrolar prego. Ah bom.

A Emissora Rural fazia propaganda de funerária. Drogaria e bolacha. Bicicleta, tecidos da primavera e também os primeiros “picineis” da visótica.

No Rio de Janeiro, os jornalistas, Armando Nogueira e Alice-Maria, na TV GLOBO, já experimentavam a gloria do jornal nacional, imbativel no país inteiro como o Reporter Somassa era imbativel na Emissora Rural de Mansueto de Lavor para audiencia nordestina, pois já havia onda curta no radio. O jornal nacional e sua até hoje inconfundível marca na trilha sonora aquecendo a noite, o Reporter Somassa da Emissora Rural, molhando o sol do meio dia com sua musiquinha  audioespacial.

1970. Brasil tricampeao de futebol do mundo. Emissora Rural, católica como o Hemisferio Sul, campeã de audiencia no rádio e nos departamentos de policia do regime Medici.

Dom Campelo, rezava e doutrinava. Padre Mansueto de Lavor, botava jornalismo secular. A CNBB de Dom Helder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns, estimulava o evangelho com os temas nada religiosos da campanha da fraternidade.

A        ditadura brandia medo. Nilo coelho, governador de pernambuco, vociferava vontade de irrigar bebedouro, a emissora rural, produzia estridente um radio povo.

Por Marcelo Damasceno.

Categorias Destaque História