A conversão quaresmal

O tempo da Quaresma acentua e insiste numa dimensão de nossa vida cristã: a conversão. De fato, ela é um “sinal sacramental” de nosso caminho de fé para Cristo, que se fez servo-obediente, o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29) e, consequentemente, para a vida fraterna.  A oração deste tempo expressa claramente: “para renovar, na santidade, o coração dos vossos filhos e filhas, instituístes este tempo de graça e salvação” (Prefácio da Quaresma II). A conversão quaresmal é um grande dom de Deus que nos auxilia a aprofundar e amadurecer como discípulos de Jesus Cristo, seus seguidores. Só se faz um caminho de conversão estando no caminho com Cristo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34). A partir desta conversão para Cristo, acontecerá a conversão moral. O sentido evangélico de conversão não são exortações morais para a fraternidade e a construção da paz, mas algo mais profundo, uma reviravolta interior, que tem suas consequências a nível pessoal e também social. Trata-se de reconhecer e acolher a iniciativa de Deus que, unicamente por amor, reconcilia consigo o mundo. É um voltar-se para Deus de todo o coração.

A conversão assume o sentido de renovação batismal. Retornar a descobrir e aprofundar a alegria do batismo. Renovar é reviver a vida nova que Deus nos deu no dia de nosso batismo, visto que, pela nossa fraqueza, acabamos pecando. A escuta atenta da Palavra ilumina o conhecimento de nossos pecados, convida para a conversão e infunde confiança na misericórdia de Deus. O evangelho nos possibilita a aproximação de Jesus Cristo, como seus discípulos, e, ao mesmo tempo, revela nosso afastamento do caminho cristão, e também a revelação da infinita misericórdia de Deus. O cristão sabe que a primeira ruptura pecaminosa, origem de todas as outras, é uma ofensa a Deus: “Pai, pequei contra o céu e contra ti” (Lc 15,19). Jesus, que veio para procurar os pecadores (cf. Lc 19,10), revela o bom Pai que ama, espera e é o primeiro a dar o abraço da reconciliação (cf. Lc 15,20). Jesus nos mostra a misericórdia de Deus como uma gratuidade pura, que supõe e supera a justiça, que renova a vida.

A decorrência lógica deste processo de conversão é a reconciliação, com Deus, consigo mesmo e com os outros. “O movimento de volta a Deus, chamado conversão e arrependimento, implica uma dor e uma aversão aos pecados cometidos e o firme propósito de não pecar no futuro. A conversão atinge, portanto, o passado e o futuro; nutre-se da esperança na misericórdia divina” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1490). Daí o sentido e a necessidade da confissão dos pecados, que é muito mais do que apresentar a Deus, por meio do padre, uma lista de transgressões, mas um movimento interior de uma vida que se sente necessitada da misericórdia divina para renovar-se e mergulhar novamente, espiritualmente, na pia batismal. Não é somente um diálogo fraterno ou uma direção espiritual, que é tão importante, mas a alegria do perdão que Deus concede aos nossos pecados e nos dá a liberdade interior e a paz espiritual.

A conversão, que renova nosso batismo, e nos reconcilia, deve, necessariamente, nos tornar instrumentos de reconciliação, promotores da paz. À medida que acolhermos de coração agradecido o grande dom da reconciliação, tornamo-nos promotores da reconciliação na existência cotidiana, na vida familiar, na comunidade e na urgente missão de superação da violência. Diz São Paulo: “Sejam bons e misericordiosos uns com os outros, como também Deus perdoou a vocês em Cristo”.

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

Fonte CNBB

 

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